“Um filme passou na minha cabeça”, diz guarda municipal que atendeu bebê abandonado no ABC Paulista

A policial Ana Paula Nishitani, que foi adotada quando criança, atendeu bebê deixado em UPA em São Bernardo do Campo Foto — ©Reprodução.

Era por volta das 16h15 do último domingo quando um funcionário acionou o botão de pânico de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Na viatura, a caminho de uma ocorrência de estacionamento irregular, a guarda municipal Ana Paula Nishitani, de 39 anos, foi avisada pela central de monitoramento que um bebê havia sido abandonado no banheiro do posto de saúde.

— A primeira coisa que falei para meu parceiro [de viatura] foi: ‘a vida em primeiro lugar’. A gente não sabia quais eram as condições da criança, precisávamos ser rápidos. Chegamos em cerca de cinco minutos — recordou.

O bebê foi encontrado por uma funcionária terceirizada da limpeza pouco antes. Estava sem roupa e sem fralda, enrolado em três fronhas e um moletom vermelho. Ainda mantinha o coto umbilical, uma pista de que não tinha nem cinco dias de nascido. Ao lado, um bilhete com os dizeres: “Boa tarde, por favor, cuidem bem dele e levem ao médico”.

Ana Paula é mãe solo de dois rapazes, de 22 e 19 anos, e não teve como não associar aquele bebê do sexo masculino aos filhos ao segurá-lo no colo. Ao ver o rosto sereno do menino, que não chorou nem quando foi examinado pelos médicos, lembrou também da própria história.

Ela foi adotada ainda bebê e o encontro com sua mãe ocorreu também num hospital. A mãe era enfermeira, e cuidou de uma mulher grávida que não queria a bebê. Era Ana Paula, que foi direto morar com a enfermeira quando nasceu.

— Passou um filme na minha cabeça. A gente se emociona, né. Se pudesse, levava ele para mim. Ainda brinquei: “imagina, uma policial cometendo um crime ao sequestrar o bebê! — disse.

Ana Paula conta que o bebê estava bem cuidado, limpo e não tinha restos de placenta típico dos recém-nascidos. Ela diz acreditar que a mãe do menino queria que ele ficasse bem, prova disso é que o deixou numa unidade de saúde, e que não julga a mulher.

— Pode ter sido uma depressão pós-parto, um momento de desespero. A gente vê tanta coisa pior, como descartar no lixo ou outro lugar que ninguém vê. Mas ela deixou para alguém cuidar — opinou.

O bebê ficou na UPA do bairro Baeta Neves por cerca de uma hora. Depois de receber os primeiros socorros, foi de Samu para o Hospital da Mulher, onde permanece internado, tomando antibiótico. A previsão de alta é em 30 dias. De lá, será encaminhado ao Conselho Tutelar de São Bernardo.

Fonte — O GLOBO.