Brasileira presa com drogas no Camboja: o que se sabe sobre o caso

O que se sabe sobre o caso da brasileira presa no Camboja por suspeita de posse de drogas — Foto: Arquivo Pessoal
O que se sabe sobre o caso da brasileira presa no Camboja por suspeita de posse de drogas — Foto: Arquivo PessoalBrasileira presa no Camboja é vítima de tráfico humano, adoeceu na prisão e família perdeu R$ 27 mil em golpe — Foto: Arquivo PessoalComo é a prisão em que brasileira está após tráfico humano denunciado pela família — Foto: ReproduçãoPalácio do Itamaraty — Foto: Reprodução/ Agência Brasília

A brasileira Daniela Marys de Oliveira está presa no Camboja e é acusada de posse ilegal de drogas. Ela está na penitenciária Provincial de Banteay Meanchey, e a família argumenta que ela é vítima de tráfico humano e alvo de uma armação de uma organização criminosa, que ”implantou” droga no banheiro do local onde ela morava.

O g1 separou as principais informações sobre o caso, desde o início do ano, quando Daniela saiu de João Pessoa e aceitou uma vaga de emprego no país do Sudoeste Asiático até o julgamento dela, realizado na quinta-feira (23).

Inicialmente a informação era de que Daniela era acusada de tráfico de drogas pelas autoridades cambojanas, no entanto, a irmã dela informou que desde o início das investigações contra ela, a acusação é de posse ilegal de drogas.

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Natural de Minas Gerais, parte da família de Daniela veio para a Paraíba antes da filha. Somente em novembro de 2024 Daniela, arquiteta formada, em busca de emprego, chegou a João Pessoa, para passar um período com a mãe, Myriam Marys. Ela contou que, nesse período, a filha enviou vários currículos em vagas na internet e encontrou uma vaga para trabalhar como telemarketing no Camboja.

Era uma vaga temporária para o trabalho, que poderia se estender até um ano. Daniela ficou muito interessada porque não conseguiu outras vagas desde que havia chegado à Paraíba em janeiro de 2025. Por isso, aceitou a oferta, embarcando para a Ásia no fim de janeiro.

A mãe foi contra a ida desde o início e desconfiou do local em que a filha se instalou para o trabalho.

De acordo com a mãe, após as desconfianças iniciais, a suspeita se confirmou e por meio do celular da filha supostos golpistas pediram dinheiro para a família, cerca de R$ 27 mil. O argumento era de que esse era o valor da multa prevista em uma rescisão contratual, que os suspeitos teriam dito que precisaria ser paga após uma demissão da brasileira.

Segundo a mãe, pouco depois de enviar o dinheiro para os supostos golpistas, ela recebeu uma ligação da filha, que desde a transferência do montante não havia entrado em contato mais. Ela conta que a própria Daniela relatou ter sido detida injustamente por posse de drogas no Camboja.

A mãe explicou que Daniela havia dito que essas cápsulas de droga foram colocadas no banheiro do local onde a mulher morava porque ela havia recusado participar de um esquema de golpes na internet. Na prisão, segundo a família, Daniela chegou a adoecer devido às más condições do local.

A prisão Provincial de Banteay Meanchey, onde Daniela está presa, tem um histórico de superlotação, registro de morte e até inundações. De acordo com a mãe, a cela onde a brasileira está é compartilhada com outras 90 mulheres.

De acordo com o noticiado pela mídia do Camboja, um levantamento feito em relação às prisões do país, entre elas a que a brasileira está presa, as penitenciárias estão operando acima da capacidade que suportam. O levantamento destaca que a operação está 200% acima do que é suportado, com o número de presos aumentando 23% nas unidades.

Em março deste ano, um deteteto de 22 anos morreu na prisão Provincial de Banteay Meanchey, devido a um problema cardíaco e falta de oxigênio no cérebro, segundo a mídia do Camboja. Ele foi preso em 2023, por posse e transporte de armas sem permissão, violência intencional, roubo e uso de drogas ilegais.

A província onde a prisão está situada, que leva o mesmo nome da penitenciária, fica a noroeste do Camboja e a imprensa do país registra diversas inundações na região que atingiram várias pessoas.

Em 2020, por exemplo, tempestades mataram 18 pessoas e 25 mil tiveram que ser evacuadas de suas casas. Por conta dessas inundações, a prisão de Banteay Meanchey também teve que evacuar alguns detentos à época.

De acordo com o documento da Human Rights Watch, no código penal cambojano existem diversas etapas de procedimento padrão para serem adotadas em investigações contra diversos crimes no país, como a seguir:

Na segunda fase do processo, no Tribunal de Primeira Instância, não há um júri para analisar o caso e, sim, três juízes responsáveis pela sentença após deliberação da promotoria, que acusa, e os advogados que defendem.

O g1 teve acesso a um documento que mostra que Daniela está na fase de julgamento, ou seja, ela passou por avaliação dos juízes sobre a acusação de posse ilegal de drogas. No entanto, o código de processo penal afirma que uma sentença sobre o caso não é necessariamente proferida no mesmo dia do julgamento.

O juiz marcou a data de divulgação do resultado para o dia 12 de novembro.

A presidente da ONG The Exodus Road no Brasi e também integrante de uma ramificação da Interpol que combate o tráfico humano, Cintía Meirelles, disse que o caso em que Daniela aparenta estar, em situação de tráfico humano, é uma realidade constante de muitos brasileiros. Ela diz que brasileiros são cooptados por redes criminosas para trabalharem no exterior.

O modus operandi dessas organizações de tráfico humano, conforme a ONG, exploram as vítimas cooptadas “para a prática de diversos crimes, inclusive cibernéticos, cometidos sob coerção e ameaça”.

A presidente da ONG também faz parte de uma ramificação da Interpol, que atua no combate ao tráfico humano internacional. De acordo com essa ramificação, estima-se que mais de 300 mil migrantes estejam sendo traficados atualmente para a região do Sudeste Asiático.

Em nota, o Itamaraty disse que “tem conhecimento” do caso. No entanto, não deu detalhes do que está sendo adotado como providência para ajudar Daniela no Camboja.

“A Embaixada vem realizando gestões junto ao governo cambojano e prestando a assistência consular cabível à nacional brasileira, em conformidade com o Protocolo Operativo Padrão de Atendimento às Vítimas Brasileiras do Tráfico Internacional de Pessoas”, diz a nota.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, em 2024 foi prestada assistência a 63 brasileiros em situação de tráfico de pessoas, dos quais 41 no Sudeste Asiático.

Fonte: g1 PB