Rastrear a origem do pescado pode ser uma estratégia importante no combate aos casos de contaminação por ciguatera. É o que garante a coordenadora do Laboratório de Microalgas Marinhas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a professora Sílvia Nascimento.
👉 A ciguatera é uma intoxicação alimentar causada pela ingestão de peixes contaminados com toxinas produzidas por microalgas que se proliferam em recifes de corais tropicais e subtropicais. Os sintomas variam de enjoos a neurológicos. Não há tratamento específico para a ciguatera (entenda melhor mais abaixo).
Na semana passada, a Secretaria de Estado da Saúde Pública do RN (Sesap) confirmou a notificação de mais cinco casos de ciguatera – todos ocorridos em uma mesma família.
Ao todo, o estado chegou a 115 casos – entre casos suspeitos e confirmados – de ciguatera em 2026. Em 2025, ao todo, foram 90 confirmados.
Para a especialista Sílvia Nascimento, o rastreamento dos peixes pode ajudar a identificar alguma determinada região mais propensa a contaminações.
“Uma estratégia que pode ser usada para gerenciar o problema é simplesmente deixar de pescar onde há uma maior probabilidade de ter peixes com ciguatoxinas”, explicou.
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Além dos próprios peixes, a professora da Unirio também entende que é importante o monitoramento das microalgas que produzem a toxina que causa a ciguatera. Segundo a especialista, isso serve como um “sistema de alerta precoce” da doença.
“Contando quantas células têm dessas microalgas para que a gente saiba se, por exemplo, alguma época do ano elas se proliferem mais, onde tem mais, quando vai ter mais chance de ter ciguatera”, pontuou.
“Esses estudos são fundamentais, tanto de monitoramento das microalgas, no ambiente de ciguatoxinas no pescado, e o rastreamento para identificar os locais onde tem uma maior probabilidade de ter peixes que acumularam ciguatoxinas”, reforçou.
Os pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro estudam as microalgas no litoral do Nordeste, principalmente na costa de Fernando de Noronha. O objetivo é identificar quais espécies produzem a toxina e em que condições elas se multiplicam.
Segundo a professora Sílvia Nascimento, os estudos mostram um aumento da temperatura dos oceanos causado pelas mudanças climáticas e um processo de eutrofização, que é a entrada de nutrientes provenientes das atividades do homem.
“Por exemplo, nutrientes que vêm dos efluentes domésticos que são lançados em baías, rios e acabam nos oceanos, e também nutrientes provenientes de fertilizantes que são aplicados em solos agrícolas” citou.
“Todos esses ingredientes acabam levando a uma maior proliferação de microalgas nocivas que produzem toxinas, como é o caso do gambierdiscus que produz as ciguatoxinas que causam a ciguatera”, completou.
O primeiro surto no estado foi registrado em 2022, acometendo dez pessoas de um mesmo núcleo familiar, associado ao consumo do peixe popularmente conhecido como bicuda (barracuda).
🐟 Desde o primeiro caso, foram registrados episódios envolvendo diferentes espécies de peixes, segundo a Sesap, com destaque para barracuda (bicuda), cioba, guarajuba, arabaiana e dourado – incluindo confirmações laboratoriais da presença de ciguatoxina caribenha em algumas amostras analisadas.
A ciguatera é uma intoxicação alimentar causada pelo consumo de peixes que vivem em áreas de corais e recifes contaminados por ciguatoxinas. Essas toxinas estão presentes em microalgas invisíveis a olho nu.
Peixes pequenos comem essas algas e acabam passando a toxina para os peixes maiores e carnívoros.
Quando o ser humano consome um desses peixes de médio ou grande porte, a intoxicação acontece, podendo causar sintomas que variam de enjoos a problemas neurológicos.
A Sesap reforça ainda que as ciguatoxinas são incolores, inodoras e insípidas, não sendo eliminadas por métodos convencionais de cozimento, congelamento, salga e defumação. Uma vez presente no pescado, a toxina permanece ativa mesmo após preparo e digestão. As maiores concentrações das toxinas estão presentes na cabeça, vísceras e ovas dos peixes.
Segundo a Sesap, os principais sinais e sintomas da ciguatera aparecem entre 30 minutos e 24 horas após a ingestão do pescado contaminado, caracterizados por:
Os sintomas podem persistir por semanas ou meses. A Sesap informou ainda que não existe tratamento específico ou antídoto para a ciguatera.
Segundo o médico infectologista Antônio Araújo, o tratamento visa combater os sintomas, que costumam ser abrangentes.
“A diarreia, que é um quadro mais frequente nesses pacientes, a gente tem que hidratar. Nós não podemos fazer antidiarreico nem antinflamatório, porque senão você contém mais toxina nos pacientes. Nos pacientes neurológicos, eles podem ter uma neurite periférica e muita dor no corpo, aí você vai fazer um analgésico mais potente”, explicou.
As principais recomendações da Sesap à população são:
Fonte: g1 RN






