Dia da Biodiversidade: ‘Falar com as crianças é dialogar com o futuro’, diz bióloga após responder carta de estudante de Natal

O estudante potiguar Martim Moura Suassuna escreveu uma carta para a bióloga Neiva Guedes — Foto: Reprodução
O estudante potiguar Martim Moura Suassuna escreveu uma carta para a bióloga Neiva Guedes — Foto: ReproduçãoNeiva Guedes respondeu carta de estudante potiguar — Foto: Reprodução

Uma atividade de sala de aula desenvolvida por alunos da Casa Escola, em Natal, ganhou um desdobramento inesperado às vésperas do Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado nesta sexta-feira (22). Após escrever uma carta para a bióloga e conservacionista Neiva Guedes, referência mundial na preservação das araras-azuis, o estudante Martim Moura Suassuna recebeu uma resposta enviada pelo Instituto Arara Azul e assinada pela própria pesquisadora.

A carta foi produzida durante uma atividade realizada na semana do Dia Internacional da Mulher pelo 2º ano do Ensino Fundamental. A proposta, intitulada “Uma dezena de motivos para admirar uma mulher”, integrava conteúdos de Matemática e de um projeto de pesquisa desenvolvido pela turma. “Aliado aos estudos sobre dezenas, estávamos investigando os animais da fauna brasileira. Então, Martim, que tem uma grande paixão pelas araras, resolveu escrever para Neiva”, lembra a professora Lorena Santos.

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Em casa, o entusiasmo do estudante motivou a família a levar a proposta adiante. De acordo com a mãe de Martim, Monize Moura, o filho chegou animado após conhecer a trajetória da pesquisadora. “Ele chegou em casa muito feliz contando sobre ela, que é bióloga e foi responsável por tirar a arara-azul da extinção. Quando terminou de produzir a carta, insistiu muito para enviarmos para ela. Diante do entusiasmo dele, procuramos o endereço e enviamos pelos Correios”, relata.

Semanas depois, para surpresa de Martim, da professora e da família, a resposta chegou à Casa Escola acompanhada de livros infantis sobre o Pantanal. Para Monize, o episódio representou mais do que uma troca de cartas. “Acho muito bonito quando a criança percebe, durante a alfabetização, que a linguagem está a serviço da comunicação. A carta também estabelece um outro tempo, diferente da lógica imediata do mundo digital”, destaca.

“Quando ela responde ao Martim com uma mensagem tão generosa, ela também transmite a importância da espera, da escuta e do respeito ao tempo do outro. Além disso, considero muito importante apresentar aos meninos um mundo em que as mulheres ocupam diferentes espaços e posições de liderança, mas também uma sociedade em que o cuidado seja visto como um valor. Neiva Guedes é uma referência nesse sentido”, completa Monize.

Com mais de três décadas dedicadas à conservação das araras-azuis, Neiva Guedes é fundadora do Instituto Arara Azul e liderou iniciativas que contribuíram para retirar a espécie da ameaça de extinção. Nos anos 1980, estimava-se que existiam cerca de 1,5 mil araras-azuis na natureza. Atualmente, a população ultrapassa 6 mil indivíduos. Números que, para a pesquisadora, ganham ainda mais significado ao perceber o alcance do trabalho desenvolvido junto às novas gerações.

“Receber contatos de pessoas mais velhas ou estudantes de graduação que conhecem nosso trabalho por meio de professores, livros e artigos científicos já é muito bom, mas receber cartas de crianças é ainda mais especial. Saber que o meu trabalho chega até elas é muito gratificante. Afinal, estamos falando das futuras gerações que vão ajudar a cuidar do planeta, e isso nos deixa esperançosos de que o mundo ainda tem jeito. Falar com as crianças é dialogar com o futuro que queremos”, afirma Neiva.

A pesquisadora destaca ainda o papel das crianças como multiplicadoras das pautas ambientais, com potencial de impacto não apenas no futuro, mas também no presente. “As crianças são mais sensíveis e têm o poder de impactar as pessoas ao redor, como pais, avós e familiares. Muitas vezes, conseguem provocar reflexões que nós, adultos, não conseguimos. Por isso, é tão importante que cresçam com consciência ambiental e mais atentas ao meio em que vivem, ao consumo e às escolhas do dia a dia”, ressalta.

Neiva também defende que o aprendizado acumulado no Pantanal, no Cerrado e, mais recentemente, na Amazônia, pode inspirar ações em outros biomas brasileiros, como a Mata Atlântica e a Caatinga, presentes no Nordeste. “Muitos problemas ambientais se repetem em diferentes biomas. Uma das maiores lições que aprendemos é que não existe conservação sem envolver as pessoas. Para conservar, é preciso conversar, mostrar, envolver e sensibilizar”, afirma a presidente do Instituto Arara Azul.

Para a diretora da Casa Escola, Priscila Griner, a troca de correspondências entre Martim e Neiva Guedes transformou uma proposta interdisciplinar em uma experiência concreta de pertencimento, escuta e participação no mundo. “Quando uma criança percebe que sua escrita pode alcançar o outro, gerar resposta e estabelecer conexões reais, o aprendizado ganha sentido. Essa experiência também mostra como a escola pode aproximar os estudantes de temas urgentes a partir do encantamento e da curiosidade”, finaliza.

Fonte: g1 RN