A maternidade é marcada por uma rotina de cuidados, responsabilidades e dedicação constante. Para mães atípicas, que são mulheres que cuidam de filhos com deficiência, transtornos ou condições que demandam acompanhamento contínuo, essa realidade costuma ser ainda mais intensa, com jornadas que envolvem terapias, consultas médicas, adaptação da rotina familiar e atenção permanente às necessidades das crianças.
Entre desafios diários, mudanças na vida profissional e a busca por rede de apoio, mães atípicas enfrentam uma rotina que m arcada pela sobrecarga física e emocional. Em Campina Grande e Lagoa Seca, no Agreste da Paraíba, as mães Edivânia, Mônica e Andressa compartilham à Rede Paraíba experiências sobre os desafios e aprendizados vividos no cuidado com os filhos.
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Edivânia recebeu o diagnóstico de autismo do filho Davi quando ele tinha três anos, no início da pandemia de Covid-19. O momento, marcado pelas incertezas da doença e pelo isolamento social, também foi acompanhado pelo medo diante do desconhecido.
Além da adaptação à nova rotina, a mãe passou a enfrentar desafios ligados ao tratamento do filho, ao preconceito em situações do cotidiano e à sobrecarga emocional causada pelo cuidado constante. Segundo ela, o desgaste psicológico chegou a afetar diretamente a própria saúde mental.
A partir da busca por apoio, Edivânia afirma que passou a enxergar a maternidade atípica de outra forma. Para a filha dela e irmã de Davi, Maria Eduarda Queiroz, a mudança de comportamento da mãe foi resultado da rede de apoio construída ao longo dos anos.
“A maior diferença que eu vi foi ela, de fato, estar incluída e disponível para entrar nesse mundo, ainda que muito incerto, e ver o quanto ela se esforçou para que o meu irmão tivesse evoluído hoje, seja em terapia, seja buscando ajuda, livros, pessoas, ou ter passado por situações que talvez seja inimaginável uma mãe querer passar”, afirmou.
Atualmente, além de mãe atípica, Edivânia também atua como ativista e produtora de conteúdo sobre o transtorno do espectro autista. Segundo ela, a principal meta continua sendo garantir mais autonomia para o filho. “Eu acho que meu maior sonho hoje é tornar Davi independente. Essa é a minha maior luta. E atrás dessa ativista tem essa, a mãe que quer torná-lo independente”, concluiu.
Andreza recebeu o diagnóstico do filho Antony ainda durante a gestação, em 2015, após ser infectada pelo vírus da zika. Com dois meses de gravidez, ela foi informada de que o bebê tinha microcefalia, condição que marcou o início de uma rotina de incertezas e adaptações para a família.
Antes da gravidez, Andreza cursava nutrição em uma universidade de Campina Grande. Após o nascimento do filho e a primeira internação hospitalar, ela decidiu interromper a graduação para se dedicar integralmente aos cuidados com a criança.
Desde então, a rotina da família passou a ser organizada em função do tratamento de Antony, que não anda nem fala. Há mais de dez anos, Andreza e o marido, Maurício, percorrem cerca de nove quilômetros entre Lagoa Seca e Campina Grande para que o filho participe das terapias de reabilitação no Instituto Assistencial Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq).
No mês passado, Antony completou 10 anos. Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo da última década, Andreza afirma que o maior desejo da família continua sendo celebrar a vida do filho.
Mônica sempre sonhou em construir uma família grande. Após enfrentar dois abortos espontâneos e o nascimento prematuro do filho Davi, a maternidade passou a ser acompanhada por desafios emocionais e mudanças profundas na rotina da família.
Davi nasceu com 32 semanas de gestação, sofreu hipóxia cerebral e permaneceu entubado por 27 dias. O diagnóstico de paralisia cerebral espástica veio posteriormente, durante sessões de fisioterapia realizadas na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
🔎 A paralisia cerebral espástica é uma condição neurológica que afeta os movimentos e a coordenação do corpo, causando rigidez muscular e dificuldade para andar ou realizar atividades motoras. É o tipo mais comum de paralisia cerebral e pode surgir após lesões no cérebro durante a gestação, no parto ou nos primeiros anos de vida.
Após o período de internação, Davi também recebeu diagnósticos de déficit cognitivo e autismo. Desde então, ele depende de cuidados constantes da mãe, que organiza a rotina em função das necessidades do filho.
Além da maternidade atípica, Mônica atua como tenente-coronel da Polícia Militar da Paraíba. Segundo ela, a necessidade de conciliar a carreira profissional com os cuidados do filho trouxe sentimentos de culpa e sobrecarga ao longo dos anos.
Apesar das dificuldades enfrentadas pela família, o vínculo entre mãe e filho é marcado pelo afeto e pela admiração mútua. Davi afirma reconhecer o esforço diário da mãe. “Minha mãe tem bastante cuidado por mim. O meu sonho é cuidar dela. Quando eu preciso dela, ela me ajuda por tudo. Sou feliz, muito feliz por ela. Eu tenho minha família no fundo do peito”, disse.
Para Mônica, as experiências compartilhadas por mães atípicas criam uma identificação coletiva entre mulheres que enfrentam desafios semelhantes.
“A gente se vê representada nas histórias umas das outras. O que eu quero pra Davi é viver o mundo lá fora”, concluiu.
A realidade enfrentada por mães atípicas vai além das histórias de Edivânia, Andreza e Mônica. Desde o momento do diagnóstico dos filhos, muitas mulheres passam a lidar com uma sobrecarga emocional, física e financeira marcada por incertezas e mudanças na rotina.
Segundo a psiquiatra Isabella Florentino, o processo de receber um diagnóstico costuma ser acompanhado por sentimentos semelhantes aos vividos em um luto.
Mesmo após a fase inicial do diagnóstico, especialistas apontam que mães atípicas, principalmente aquelas sem rede de apoio ou independência financeira, estão mais suscetíveis ao desgaste emocional.
Para a neuropsicóloga Débora Paz, fatores como preconceito, falta de informação e ausência de suporte adequado contribuem para esse cenário.
Além da sobrecarga emocional e da rotina intensa de cuidados, o impacto financeiro também faz parte da realidade de muitas famílias. Segundo a especialista, os custos com terapias, tratamentos e acompanhamento especializado podem aumentar ainda mais a pressão sobre as mães.
Fonte: g1 PB






